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Arquitetura e Urbanismo: o desafio da extensão e da atuação popular nas escolas

O sistema de cotas nas universidades públicas trouxe reflexos importantes a diversas profissões, incluindo a Arquitetura e Urbanismo.  Nas faculdades de Arquitetura, houve um crescimento importante no número de bolsistas e estudantes voluntários que buscam o exercício de uma arquitetura que não está atrelada ao mercado, com foco a uma não obediência a um mercado que ‘orienta’ as cidades.  A consideração foi feita por Regina Bienenstein, arquiteta e urbanista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que na tarde de terça-feira se juntou a outros convidados na live ‘ATHIS na Universidade/Extensão: caminhos trilhados e novas perspectivas’, uma produção da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) para o 27° Congresso Mundial de Arquitetos (UIARio2021).  A live foi mediada pelo arquiteto e urbanista Ormy Hütner, vice-presidente da FNA. Segundo ele, o debate foi importante por trazer relatos sobre como o ambiente acadêmico vem abordando a ATHIS como ferramenta de construção coletiva e popular, mas como opção de carreira profissional. “O envolvimento com a comunidade e essa relação horizontal para nossa profissão no aspecto da função social é importante não apenas para a formação acadêmica, mas também na construção de futuros cidadãos”, destacou.

A Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Syracuse e atual coordenadora do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (NEPHU-PROEX-UFF), comentou que o novo perfil dos estudantes que ingressam na faculdade está, sim, voltado à uma atuação baseada nas cidades populares. “Temos que considerar que a universidade não é um espaço uniforme, uma vez que reflete as diversas visões da sociedade. Temos os que defendem a cidade dos privilégios e, de outra parte, os que defendem a cidade popular e a classe trabalhadora”, enfatizou Regina. Segundo ela, essa disputa de visões de cidades dentro da universidade permeia e reflete no currículo e é algo que vem sendo enfrentado há muitos anos. “Hoje, no entanto, que cada vez mais estudantes estão chegando e pressionando para fazer com que a atuação voltada às cidades populares se sobreponha a dos privilégios”, pontuou a arquiteta e urbanista.

Também convidada para a live, a arquiteta e urbanista Liza Maria Souza de Andrade, atualmente professora e pesquisadora do PPG-FAU/UnB e líder do Grupo de Pesquisa e Extensão Periférico, afirmou que um dos grandes desafios daqui para a frente será a inserção curricular prevista pela Resolução 07/2018 do MEC, que diz que até 2022 todas as universidades deverão destinar 10%de seus créditos para a atividades de extensão. “Aí fica a grande dúvida: vamos ‘curricularizar’ a extensão ou ‘extensionalizar’ o currículo? “, perguntou. Segundo ela, de nada adianta apenas trazer a possibilidade de se ter disciplinas obrigatórias e optativas, se não houver uma mudança de pensamento sobre a necessidade de ação transformadora da realidade dentro das escolas de arquitetura. Liza defendeu uma maior flexibilização da grade curricular, algo que considera ‘engessado’. “Mudar exige, primeiramente, a própria transformação do ensino”, destacou.

Para Caio Santo Amore, arquiteto e urbanista com atuação profissional e acadêmica no campo da moradia popular há cerca de 30 anos, e professor do departamento de tecnologia da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), um dos grandes desafios da carreira é tornar possível a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, tornando fundamental ampliar a discussão sobre o papel que esse tripé exerce na formação e na carreira de arquitetos e urbanistas. Amore levou para a live uma imagem do mítico saci-pererê, pintado por Tarsila do Amaral, provocando uma reflexão, uma vez que o lendário tem apenas um pernas, que não está nem no lado esquerdo e nem no direito, mas no centro do corpo. “Estamos acostumados a falar no tripé da universidade e essa é uma imagem boa para pensar que no país do saci é preciso que seja cumprida a tal da indissociabilidade, mas o que estamos fazendo é pulando de um lado para outro tentando um equilíbrio dentro da realidade em que atuamos”, exemplificou. Somente a partir dessa reflexão, destaca Amore, será possível discutir por quê as atividades de extensão não se dissociam das atividades de ensino e pesquisa.

 

A live permanece disponível no canal da FNA no Youtube

Posteriormente será disponibilizada na plataforma exclusiva do UIA2021RIO.

 

 

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