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Marli Carrara: uma militância fervorosa que contrariou sua própria origem

“Ninguém levanta um dia e diz: hoje vou participar de um movimento. Você vai sendo envolvido aos poucos e vai dando o seu melhor. Aquilo que a vida te fez aprender”. Com essa frase, a ativista Marli Carrara, 65 anos, resume a forma como foi motivada a se engajar na luta diária pelo direito à habitação.  Ela não sabe se foi um despertar ou se já estava no sangue. O fato é que desde 1999 integra o Movimento Nacional de Luta por Moradia (UNMP), entidade que escolheu para se associar, militar e liderar em Salvador, sua cidade do coração.

Graduada em Pedagogia, Marli tem uma história diferente de muitas líderes que acabaram ingressando em movimentos sociais. Natural de Americana (SP), sua família sempre teve uma vida considerada tranquila e seus pais, conta ela, não entenderam muito bem os motivos que a levaram a fincar raízes em Salvador.  O primeiro contato na capital da Bahia foi em 1984, quando foi para lá com o seu marido na época, atrás de uma proposta de trabalho. Ela foi para uma vaga na iniciativa privada, e a vida seguia seu rumo, sem sobressaltos.  Mas quando se separou resolveu voltar para Americana, onde ficou por apenas quatro meses junto com a filha Manuela, na época com apenas quatro anos. ‘Não me sentia em casa, acabei voltando para cá (Salvador) sem emprego, sem casa e sem perspectiva’”, recorda.

Após um período de 40 dias abrigada na casa da madrinha da filha, o ex-marido alugou uma moradia em uma comunidade de Salvador para ela e a filha. Ali, as coisas começaram a ganhar uma nova perspectiva que mais tarde iria definir a sua trajetória. “As coisas eram novas, eu tinha que andar a pé, pegar, de ônibus, vivenciar uma realidade que desconhecia. Foi uma experiência que me marcou muito. Foi uma opção que muito pouca gente entendeu, mas da qual não me arrependo.”

Na comunidade onde morava, aos poucos foi tomando parte das demandas, carências e conflitos das famílias que não tinham uma moradia digna. Ao mesmo tempo em que ampliava o seu conhecimento sobre as mazelas da comunidade, ampliava o número de amigos, fazia contatos e concluía o curso de Pedagogia. ‘Naquela época não tinha a menor ideia do que era política, nem mesmo sabia onde ficava a Prefeitura e a Câmara de Vereadores”, relata. Mas, amigos em comum, acabaram indicando seu nome para ocupar uma vaga na Câmara de Vereadores, mais especificamente no gabinete do arquiteto e urbanista Zezéu Ribeiro, onde ficou por 15 anos.

Como vereador, Zezéu mantinha muitos contatos com lideranças de comunidades de Salvador, recebia diversas denúncias de remoções, indenizações a preços absurdos – todo tipo de mazelas chegava ao seu gabinete. Uma dessas denúncias, porém, levou Zezéu e sua equipe a Brasília na tentativa de discutir de perto com parlamentares uma solução para um despejo iminente.  “Fomos de ônibus, e lá na Esplanada já estavam alguns movimentos fazendo reivindicações. Ali conheci a UNLM.”

Encontros, reuniões, filiação e liderança do movimento no Estado. Se antes sua atuação era reconhecida apenas na comunidade, depois do episódio em Brasília isso começou a mudar. A integração com o movimento foi aos poucos. Em 2003, após a eleição do presidente Lula, iniciou-se a preparação para a 1° Conferência das Cidades, espaço onde se aproximou definitivamente da UNLM e nunca mais saiu. “Sempre gostei dessa área, sempre tive um pé na sociedade civil e, com os projetos do governo e curso, em 2004 comecei a me dedicar 100% a projetos de moradia e de construção”, afirma.  A parte administrativa/burocrática de projetos passou a ser com ela – e um deles é justamente onde vive atualmente. O Condomínio das Mangueiras é resultado de muita luta que envolveu desde a garantia da terra, contratação da obra e seu efetivo início, em 2014. O local é a casa de 614 famílias em Salvador, e cada canto do empreendimento é motivo de emoção para Marli. ‘O primeiro tijolo na minha casa foi eu mesma que coloquei.”

Sua atuação no mundo dos movimentos sociais – líder da UNMP-BA e as conquistas feitas juntos às famílias ainda lhe rendeu muitos frutos. Além de uma filha que também está na coordenação do mesmo movimento – resultado de muita ida com a mãe às assembleias dominicais – Marli Carrara tem orgulho em dizer que foi eleita por três gestões para o Conselho Nacional das Cidades e do CONCIDADES-Bahia – Conselho nacional das Cidades do Estado da Bahia. Mas aquele que considera o maior reconhecimento veio em março de 2018, quando recebeu o título de cidadã soteropolitana.  “Uma paulista que abraçou a Bahia e constrói esperança na luta do povo sem moradia”, postou a UNLM em sua rede social, na época.  E Marli completa: “Por aí a gente percebe que não fez tanta besteira na vida”, brinca.

Foto; MNLM-BA/Divulgação

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